Sai do hotel hoje de manhã com balas e caramelos no bolso.
Certamente, eu falava para ela... a mais de dez anos vivo sozinho, andando por ai, conhecendo o amor (em essencia), a arte (em admiração) e a cultura (em estudo). Ela estava sentada delicada numa cadeirinha de madeira, café des délices, enquanto eu falava dos momentos em que passei fome em Portugal. Dentro do taxi, eu apertava pernas. Sentia a umidade entrepernas. E mordia labios.
-- Excuse moi, savez vous où se trouve l'ambassade française?
Foi assim que me aproximei hoje a tarde de dois militares que faziam a segurança da av. Habib Bourguiba, local da concentração popular --- do 14 de janeiro de 2011 -- pela liberdade e democracia tunisiana.
Eu só queria fazer algumas fotos dos carros da armada em vigilia da embaixada após a revolução que inaugurou a Primavera Arabe e tirou o presidente Ben Ali do poder. Eu já tinha feito fotos da fronteira da Libya, do campo de refugiados em Chaucha, do Ministério de Relações Exteriores, do palácio presidencial em Cartago, e de uma mocinha delicada, que vendia café quente com seu pai muçulmano, quase fundamentalista, na pequena vila de Kebili... Histórico.
Hoje é sábado e estou bebendo uma garrafa de vinho que abri com um clips. Tirei uma foto da garrafa. E do clips também. Domaine Phénicia.
Eu tentei comprar vinho ontem, mas era sexta feira, e eu estou em um pais muçulmano. Estava dentro do supermercado e não encontrei nenhuma gondola, ou estante ou seja lá como você chama o local onde os vinhos ficam expostos. Tentei perguntar para um senhor que fazia a reposição de alguns produtos estranhos, tipo umas batatas verdes, umas coisas que pareciam uns rabanetes com umas folinhas verdes e um pozinho cheiroso que depois vim a saber era Tabeul parfumé (que fiquei conhecendo naquele instante!). Cheguei do lado dele e com uma cara de desinformado e ignorante perguntei em frances: Senhor, onde encontro vinho? Ele me olhou sério, bravo, e disse: Vendredi, vendredi.. allez, allez, partez. Abri os olhos grandes, admirado e imóvel. Para os muçulmanos vinho é proibido, e sobretudo, toda sexta feira é sagrada. Merde; Pas du vin pour moi ce soir! E fui embora para o hotel com uma baguete, dois bolinhos de viande recheados com queijo e uma garrafa de agua.
Ontem eu visitei o museu do Bardo. É o segundo museu mais importante da África, depois do museu do Cairo. É o museu com os mais belos mosaicos romanos e gregos do mundo. Tem uma sala especial para a narrativa dos fatos de Carthage, história grega, romana, fenicia, e otomana. Puta que o pario: Foda! Acho que estou meio alegre! Fiz um calculo, na marina de Sidi Bou Said, hoje a tarde, onde voltei, almocei. Eu já visitei: Campos de Refugiados, visitei e fiz fotografias perigosas e proibidas da fronteira com a Libya, visitei Chenini e Tataouine, visitei sites arqueológicos em Carthage (Cartago), fui repreendido pelo exercito de fotografar o palacio presidencial, um tiozinho ficou puto comigo porque eu queria comprar vinho na sexta feira, uma sensivel mocinha me olhava com olhos escondidos e me mandou um bilhetinho em um frances, pior que o meu, dizendo que me amava (ela só me viu uma vez), visitei o deserto do Sahara, e lá trepei, fiz amor, entrei em transe...; foder gostoso no meio de uma festa folclórica touareg, com uma estrela brilhante nos olhos, com carinho, com delicadeza com sensibilidade. Lembrei das besteiras que se fala em ouvidos excitados e dos banhos ensaboados. Caramba, como calcinhas brancas de algodão me excitam!
Corto o pão com as mãos, mastigo junto um pedaço de jambon e me lembro que hoje de manhã descobri que tem uma rota de travessia Tunis-Marseille em navio. Fico tentado. Mas deixo para o verão.
O bairro mais emocionante de Tunis, para mim: Bab Souika, Halfaouine. Lembrei de "O garoto do terrasso. 1990 - Férid Boughedir". Entrei em um labirinto de vielas/feira (onde você compra de tudo, de cabeça de boi fresca a aparelhos televisivos, roupas, tabaco, chapeu, sapatos, perfumes e essencias, alimentos, frutas secas, pistache... humm pistache!!!) que só descobri o fim depois de uma hora e meia de peregrinação.
Já tenho mil e setenta e uma fotografias. Acabei de verificar. Doze cidades muçulmanas.
Eu estava hoje no trem voltando de Sidi Bou Said para Tunis. Duas moças, de uns vinte e cinco anos entraram no trem com pirulitos na boca. Vermelhos quase rosa. Pareciam saborosos.
No meio da viagem, uma senhora, cega, e um menininho esfarrapado, que parecia seu filho entraram no trem lotado. Alguem deu os lugares para eles sentarem. A senhora (meio louca falava sozinha) na frente de uma das moças e o menininho (singelo) na frente da outra moça. Eu percebia que o menininho olhava as moças chuparem o pirulito em propósitos. Talvez pelo sabor, mas de certezade um modo, para fazer vontade ao menininho miseravel. Lambiam como que por fazer vontade... eu via a cena discreto... Filhas da puta, pensava. Lembrei dos meus caramelos. Enchi uma de minhas mãos com os doces que eu tinha no bolso, bati na perninha do garotinho, pisquei um olho e sorri abrindo a mão devagarzinho. Meu maior presente de Deus hoje foi o sorriso do garotinho e a satisfação que me deu de faze-lo feliz, naquele momento.
Hoje eu queria amar uma mulher eternamente. Mas só fiz um garotinho pobre sorrir com os caramelos que eu portava no bolso.
Tunis, 01H41.
Juliano Gimenez