Dezirée & Lucca Forever

sábado, maio 28

Saudade do futuro- Mica Guimarães


Menino ainda, eu tinha saudades da minha adolescência. Passei por ela e não me encontrei lá. Hoje, eu só tenho expectativa de saudades. Saudades do futuro, que já é amanhã. Quando jovem, sempre acreditei no agora; o usufruto do momento, pelo simples direito de vê-lo transformar-se em antes, como se eu tivesse todo tempo necessário, para quê? O tempo é a mais genial prisão. Nela, o homem se sente livre, por trás de grades que não vê. 

Se tenho saudades do futuro, é por que nele só há anseio, algo que não se pode apalpar. Não há ainda grades no futuro. Logo, estou livre. O futuro é o habeas-corpus do presente. O passado é cúmplice; deve ser preso. Deixar que só haja futuro. 


Era preciso abolir o tempo. Imaginem, por exemplo, o homem só presente. Sem direito a recordações. Sem registros do que se passou. Também sem a angústia do que poderá vir-a-ser. Só hoje, nada mais. Mas eu tenho saudades do futuro. Das pessoas que eu não conhecerei. Dos instantes que não viverei. Das risadas contra o mundo que eu não darei. 



Decerto que eu gostaria de abraçar meu bisneto e dizer-lhe que o tempo é ingrato e fugidio. Gostaria de colocá-lo no colo e dar-lhe uma lição: estamos fadados à guilhotina inexorável do tempo, sob a qual toda passagem se elimina. 



Será que o futuro vai ter direito a passado. Ter de olhar para trás e ver o hoje, ali, lhe cobrando caminho que se esconde além do além. Tempo, tempo, espelho da humanidade, por que o tridimensional tem que obrigatoriamente abrigar-se em teu seio murcho de depois? 



Ninguém pode garantir que viveu o passado, como não pode garantir que viverá o futuro. O hoje nunca existiu. O hoje a que me refiro agora já não é o hoje da frase passada. Passado, presente, futuro: a ilusão dos sentidos. Em outros parâmetros existenciais, não há o tempo. O tempo é a gaiola que impede a vida de voar. Do outro lado, há vida em abundância. Lá o tempo é inócuo. 



Tenho saudades do futuro, daquele que se esconde por trás do horizonte, temendo tornar-se ontem. Parem o tempo. Não deve o homem estar preocupado com os grilhões dele. Eles não existem. Talvez eu já esteja no futuro e não me lembre. Se estiver, com certeza, vou conversar comigo e dizer que tenho saudades do futuro.



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