Dezirée & Lucca Forever

terça-feira, julho 12

Nordestina, sim senhor !

Acabo de receber esse maravilhoso texto por email e faço questão de divulgá-lo...

VERGONHA QUE NÃO TENHO DE SER NORDESTINA
> Sheila Raposo - Jornalista


> Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se
> perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de
> pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.

> Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano,
> correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do
> pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos
> tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente, o
> vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das
> tetas da vaca para o meu bucho.

> Sou nordestina. Falo oxente, vôte e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria
> e José! Proseio com minha língua ligeira, que engole silabas e
> atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato.
> Os amigos acham até engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas
> o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E olhe: acho que não vai sair
> é nunca!

> Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta,
> atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira,
> feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma
> ruma de comida boa, daquela que, quando a gente termina de engolir, o
> suor já está pingando pelos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de
> um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra
> adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na
> coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de
> mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em
> casa!

> Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no
> teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas
> recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a
> indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são
> minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos,
> pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.

> Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo
> aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo
> neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu
> sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na
> torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.

> Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou
> do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo
> além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou
> uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio é bom demais. E fico nesse
> rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco
> sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço
> se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô negócio bom!

> Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso
> do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do
> pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da
> quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do
> tempo se registra a sua história.

> Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do
> que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas
> zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo
> Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do
> matuto. A chuva é bendita.

> Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura,
> pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou
> apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de
> poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo,
> enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no
> poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo
> os próprios bolsos de dinheiro.

> Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso.
> Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não
> escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a
> alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos
> que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de
> sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas..

Zabé da Loca, 85 anos, é natural de Buíque, Pernambuco. Viveu durante 25 anos numa loca (gruta de pedra) no município paraibano de Monteiro, onde criou os filhos.  Zabé da Loca conheceu a musicalidade ainda muito cedo, aos sete anos de idade, mas teve seu talento reconhecido somente em 2003. Neste ano, foi descoberta pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) durante a implantação do Programa Arca das Letras nas áreas do Projeto Dom Hélder Câmara, no Cariri Paraibano. 

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