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quarta-feira, junho 25

A Peregrinação de Watteau à ilha do Amor


O nobre sentimento chamado amor, cuja tradição define como o maior dos sentimentos, acompanha a História ao longo de todas as suas representações.
É importante ressaltar também, que para alguns, sempre foi impossível sua definição, enquanto que durante várias épocas (inclusive atualmente!) ele continuou percorrendo o imaginário social e se transfigurando em grandes obras teatrais, melodias, literaturas, esculturas e pinturas.
No livro intitulado “A Peregrinação de Watteau à ilha do Amor”, o escritor Norbert Elias, descreve com grande magnitude o quanto uma pintura pode ser expressiva e representar com isso toda a articulação social relativa ao momento de sua criação.
Quando lemos o título do livro já imaginamos que ele deva tratar de alguém, chamado Watteau partindo para uma ilha onde o amor seria seu anfitrião.
Esse imaginário simbólico, “símbolo da totalidade, e da clareza”, segundo Walter Benjamim traduz toda a visão romântica que percorria a sociedade da corte e transfigura-se anacronicamente a nossa contemporaneidade.
Quando problematizamos o contexto no qual nasceu Watteau e sua pintura, transformamos essa simbologia em uma alegoria que nos possibilita compreender melhor a utopia social que gravitava em torno desse tema, pois citando ainda Walter Benjamim “a alegoria pretende uma tradução sensível do conceito”.
Elias traça com detalhes todas as possibilidades de sentimentos representativos no quadro, justamente a partir de seus estudos de história da arte e de fontes secundárias, das quais ele se fundamentara.
Ele percebe na essência de Watteau suas intenções, o que supõe seu entendimento a cerca da vida e obra do mesmo.
Watteau foi um homem irritável, introspectivo e inquieto. Era distante por natureza e a adulação de estranhos tornava-o impaciente. Nasceu no período de Luis XIV, época na qual a aristocracia era representada ludicamente nas artes, como forma de firmar sua supremacia.Ao procurar em Paris desenvolver seu talento, ele descobre o teatro e passa a representá-lo em suas pinturas, dando fascínio e brilho aos pobres camponeses das feiras (...).
Em Peregrinação à ilha de Citera, vê-se os bailes parisienses, a alegria de viver e a atmosfera sensual que fez de Paris, nos anos da Regência de Philippe d’Orléans, sucessor de Luís XIV, a capital européia da música, do teatro e do jogo. Esta modalidade da pintura de gênero representa jovens galantes, em cenas que evocam as festas da Corte, nos primeiros momentos do reinado de Luís XIV.
Pode-se perceber que dentro de toda discussão política e ideológica, o amor tende a ser o caminho para a nostalgia, a fuga da realidade, seja ela desejada ou não. Conforme demonstra a pintura de Watteau no transcorrer dos momentos históricos e conseqüentes mudanças de interpretações, embasadas na política social vigente, a ilha do Amor seria o reduto da paz e do equilíbrio desejado por todos, em todas as épocas.

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